Qual a impressão que a pessoa que está caminhando em minha direção tem sobre mim? E o colega da fila do lanche? E o amigo de meu amigo? O que eu transmito ao andar, falar ou simplesmente dividir um olhar? Até mesmo minha respiração pode soar diferente para a pessoa que está ao meu lado.
Como seria ter minha vida narrada por outra pessoa?
Nem mesmo meu suco preferido me anima nesse momento sombrio. Não posso reclamar é claro, sei que se eu estudasse ao invés de assistir minha série, isso tudo seria mais fácil, porém, por mais que eu saiba o que é correto a se fazer, é muito melhor escolher o caminho contrario.
O dia parece escuro hoje, sem brilho, sem vida, mesmo sem ter uma nuvem no céu. Cinco minutos para mais uma prova e ainda não cheguei à metade do suco. Se ao menos conseguisse parar de pensar antes de dormir, estaria mais disposto.
Tento repassar a matéria em minha cabeça olhando fixo para o chão, uma maneira mais fácil de pensar em meio a tantas pessoas. Desconcentro-me por um segundo, é o suficiente. Um ponto branco chama minha atenção.
Ela fica na ponta dos pés e então faz o pedido. A atendente não escuta. Ela olha para os lanches expostos no vidro com um leve rubor na bochecha esquerda. Ninguém percebe. Sua mão vai à ponta de seu short jeans e o desenrola até ficar do tamanho adequado, porém, a mão sobe novamente, enrolando o tecido. Ela faz o movimento vezes múltipla.
Finalmente sua lata de Coca-Cola é entregue e ela paga com uma nota de dez com um pequeno amasso na ponta. Ela chega à ponta do balcão e escora-se com a ponta do canudo entre os lábios. Seu cheiro lembra a grama recém-cortada. Ela recebe seu troco e sorri ao olhar as notas de dois, antigas. “Provavelmente vai comprar algo na maquina.” Penso.
Ela caminha a passos lentos tentando guardar o dinheiro em sua carteira sem fazer a latinha cair. Seu olhar rapidamente cruza com o meu e só então percebo que a observo. Desvio tentando parecer indiferente, mas minha pele queima. Quando ela está prestes a sair de meu campo de visão, fixo meus olhos nela novamente. Então, ela sorri, olhando para mim e desaparece.
Olho para o balcão e a multidão já se foi. Tudo o que restou do meu suco está no canudo. O sorriso em meus lábios desvanece comumente e então me recordo: “Meu teste começa agora”.

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